quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Conto V



Scarlet sorriu. Ouviu a voz de Bing Crosby entoando White Christmas, a velha e linda canção que inicia tradicionalmente todos os Natais sendo tocada a todo vapor dentro do Macy's. Era um gelado inverno novaiorquino, as luzes das lojas e das árvores coloridas tornavam a noite tão clara como o dia. Tudo preparado para transformar mais um final de ano no grande momento do showbiz, bem ao estilo americano.

Ela sentia-se bem naquele clima festivo, adorava as músicas e os ursinhos de pelúcia nas vitrines. Se pudesse, teria em casa uma dessas grandes árvores de Natal, iluminada com centenas de velas à espera dos seus presentes... Mas naquele exato momento, tinha pressa. Estava indo ao Madison Square Garden, onde um gigantesco show de rock enchia a casa mais uma vez. Rolling Stones, argh... Tudo bem, tinha quem gostasse deles. Assim como outros optavam por grupos de estilos diversos. Sorriu, já acostumada ao horror que causava quando declarava a sua própria preferência: Britney Spears. Não ligava, ela amava músicas alegres, dançantes. No passado gostara de Chopin. Depois, de Strauss, Scott Joplin, Glenn Miller, Elvis, Beatles... Don't worry, be happy, já dizia uma outra canção... E hoje estava indo ao show por outros motivos. Começou a andar rápido, os cabelos ruivos e crespos presos por uma tiara delicada de pérolas, o rosto angelical de uma garota de dezoito anos meio oculto pela gola de vison. Seus saltos batiam de leve na calçada, as mãos pequeninas com luvas vermelhas seguravam a bolsa Chanel com cuidado. Uma vestimenta bem pouco apropriada para o compromisso, mas mesmo assim entrou sem problemas no estádio, graças à sugestão mental que enviou ao porteiro. E, do fundo do auditório, examinou com atenção a platéia.

Scarlet vivera mais do que quase todos os vampiros da sua família. Apenas os mais antigos, como ela, tinham o poder de examinar a mente de um grande número de pessoas ao mesmo tempo, e, tão rápido, que a maioria mal percebia a pequena pontada de angústia a roçar sua consciência. Nesse exercício de poder vampírico, ela captou de relance os mesmos sentimentos de sempre: amor, fraternidade, paz e todos os chavões da época de Natal. Isso era banal. Também podia distinguir outros pensamentos comuns, não tão doces mas muito mais verdadeiros: inveja, revolta e frustração... Ainda não era isso o que procurava. Depois de algum tempo, encontrou uma mente adolescente cheia de ímpetos sexuais e perversidade. Isso, sim! Não conseguia ver quem era, mas mandou na mesma hora uma ordem mental para que se dirigisse ao banheiro, vazio à essa altura. A platéia cantava em uníssono com Jagger, o show chegava ao auge e não seriam incomodados durante alguns minutos. Escondida atrás da porta, Scarlet ouviu os passos rápidos, a porta sendo empurrada. E não pôde deixar de sorrir ao vê-lo. A pele negra, luzidia como ébano. Uns dezesseis anos de pura energia sob o suéter, os músculos poderosos de um atleta retesados, alertas. Os olhos levemente oblíquos e a boca carnuda denunciavam um animal viril sob a aparência de um jovem rapaz negro.

– Moça, acho que está no banheiro errado – disse ele, dando uma risadinha e examinando o corpo de Scarlet sem disfarçar o olhar lascivo.

Ela aproximou-se e, erguendo a perna bem-feita, roçou o seu joelho entre as coxas dele.

– Estou no lugar certo, baby – sussurrou no seu ouvido, enquanto mordia de leve o lóbulo, com cuidado para não feri-lo – E você?

Ele não esperou mais. Enfiou as suas mãos sob o casaco de vison de Scarlet e, empurrando-a sobre a pia, começou a abaixar as suas meias de seda e a sua calcinha.

– Sua gostosa! – ele arfava – É isso o que você quer?

Scarlet ria, deliciada. Ela podia ouvir, ao longe, o refrão: "I can get no satisfation..."

– Filhinha de papai, não é? Agora vai conhecer um homem de verdade! – o garoto estava quase no auge da euforia.

Então ouviram a platéia começar a se levantar. O espetáculo havia terminado.

– Saia – Scarlet o empurrou. – Ou chamo a polícia.

– Mas você é uma maluca? – sussurrou ele, olhando para a porta, preocupado.

– Chega, já disse. Aqui, não.

– O cacete que não! – ele a empurrou rudemente de volta à pia. Era muito forte.

– Me larga! Vou gritar!

Ele bufou, furioso. Depois, a soltou, o olhar cheio de ódio reprimido. Ela sorriu. Podia ler o turbilhão de insultos e intenções violentas na mente do garoto. Ele estava longe de ser um modelo de bom comportamento...

– Eu irei vê-lo – disse docemente. Arrumou a saia e saiu com passos decididos entre olhares espantados de alguns rapazes que chegavam no banheiro.

O nome do garoto era Jeff. Algumas passagens pela polícia por vandalismo e brigas, abafadas pelos interessados na sua performance como cestinha do time de basquete do colégio. Morava em Queens e, claro, transava com uma garota, também negra, chamada Corinne. Era perfeito para Scarlet, que passou a vê-lo todas as noites. Era sempre a mesma coisa, ela estacionava o seu Corvette vermelho nos fundos do colégio e esperava. Logo ele surgia como um furacão, louco de desejo. Mas ela o repelia após as preliminares. I can get no satisfation.

– Bitch! – ele gritava e ela ria.

Ria dos pensamentos sacanas do garoto, ria porque ele havia terminado o seu caso com Corinne após uma briga ruidosa no pátio do colégio, ria porque ele se achava um otário nas mãos de uma garota rica. E, principalmente, ria porque sabia que ele estava aprontando uma cilada para ela.

Na noite de Natal, Scarlet o esperava no seu Corvette quando foi cercada por um bando de rapazes fortes e taludos. Jeff estava entre eles. Ela foi agarrada, amordaçada e amarrada. E jogada no porta-malas como se fosse um saco de batatas. O carro arrancou com Jeff na direção, seguido por uma Van com os demais. Após rodarem por algum tempo, estavam na auto-estrada, distanciando-se cada vez mais da cidade até pararem numa casa de campo inacabada numa área deserta de New Jersey. Scarlet foi arrastada para fora do carro. Mesmo no escuro podia ver os rostos afogueados dos adolescentes, todos grandes e fortes como Jeff. E ele era o mais exaltado:

– Ei, tirem a mordaça! – ele berrava, eufórico. – Aqui, ninguém vai ouvi-la. E eu quero que ela grite, grite sem parar!

Ela observava tudo sem uma palavra. Jeff pegou uma garrafa de uísque e tomou um grande gole no gargalo. Estava bêbado, assim como os demais. Ao seu sinal, mãos rudes começaram a rasgar as roupas de Scarlet. A pele branca e lisa apareceu, gelada, sob a luz da lanterna de Jeff.

– Sem gritos, Scarlet? Deixa estar, logo você vai gritar um pouco. Eu lhe apresento o meu time... Até os reservas estão aqui, minha vadiazinha. Você é o nosso presente de Natal – disse, começando a abaixar as calças.

– Não, honey – Scarlet ergueu-se e arrebentou as cordas com um movimento brusco – Vocês é que são os meus presentes de Natal!

Ela foi até o primeiro, um rapagão louro e espigado, e arrancou a sua cabeça com um golpe certeiro. Um jato de sangue jorrou pelo pescoço partido e ela, sem nenhum esforço, ergueu o corpo e bebeu o sangue como se o tomasse de uma garrafa. O líquido vermelho escorreu pelo seu corpo nu, cobrindo os seus seios, o seu ventre, as suas pernas... Os garotos gritavam, mas, como dissera Jeff, o local fora muito bem escolhido, não havia ninguém para ouvi-los. Com um simples pensamento, ela os fez cair, paralisados pelo poder vampírico. Terminou de beber com calma o sangue da sua vítima e jogou o cadáver no chão com displicência.

– Ótimo trabalho, dear, você trouxe os seus amiguinhos maiores, não foi? – disse para Jeff. Ele jazia de bruços no chão, os olhos assustados seguindo os movimentos de Scarlet. Ah, os jovenzinhos são tão fáceis de controlar... – Vamos preparar a ceia.

Foi fácil amarrá-los, amordaçá-los e pendurá-los pelos pés nas vigas da construção, enfileirados como peças de carne no frigorífico. Deixara apenas Jeff no chão, tinha outros planos para ele.

– Por favor, Scarlet... – Jeff conseguiu balbuciar, quando ela voltou-lhe a atenção – Me deixa ir embora...

– Não posso, Jeff. Até gosto um pouquinho de você, sabe? Mas simplesmente não posso. Agora, seja bonzinho e coloque as mãos para trás.

Jeff obedeceu. Não podia deixar de obedecer. Todo o seu corpo tremia num esforço desesperado para rebelar-se contra as ordens de Scarlet. Mas em vão.

– Scarlet... Eu não ia fazer mal a você, eu juro!

Ela deu de ombros. Amarrou as mãos de Jeff. Depois os pés. Apertou bem os nós, ele era forte, podia escapar.

– Ia me estuprar... Você e os outros.

– Não íamos fazer nada, só te assustar um pouco...

– Oh, não minta, honey, não estou brava... O que ia fazer comigo não faz diferença. Desde o momento em que o escolhi, você estava perdido de qualquer jeito. É apenas um jogo. Eu, você, seus amigos, tanto faz!

Ela começou a tirar alguns instrumentos cirúrgicos de sua maleta. Lembrou que já podia liberá-lo do poder mental, pois estava ficando cansada. Mas se arrependeu, pois Jeff, mesmo com as mãos e pés amarrados, começou a pular e gritar de maneira histérica. Scarlet suspirou, aborrecida. Não gostava muito de ouvir lamentações enquanto trabalhava.

Com uma das mãos, ela o ergueu pelo pescoço. Ele começou a engasgar, sufocado. Quando o corpo amoleceu, semi-consciente, Scarlet afrouxou os dedos de aço e o deixou cair. O garoto, desfalecido, não se mexeu. Apenas os grandes olhos esbugalhados moveram-se de um lado para outro, acompanhando seus passos. Assim era melhor. Concentrou-se agora nos demais. Eles gemiam baixinho, as mãos sangrentas retorcendo-se, as cordas enterradas na carne tenra. Girou-os um pouco no ar, brincando com os pés imobilizados. Os gritos recomeçaram, abafados pelas mordaças. Tudo certo. Apanhou as agulhas e os tubos de soro. Introduziu-as nos pescoços e drenou, lentamente, o sumo delicioso de plasma e glóbulos sangüíneos para as bolsas adequadas. Depois de algum tempo, tinha recolhido uma grande quantidade delas. Arrumou-as com cuidado numa geladeira portátil de fibra. Olhou para os rostos dos garotos. Alguns pareciam adormecidos. Todos estavam silenciosos. Eram cascas vazias, espremidas até a última gota de vida. Resquícios que precisavam ser eliminados. Pegou o galão de gasolina e encharcou os corpos. Riscou o fósforo e saiu.

Voltou até o carro e pegou suas coisas. Atrás dela, a casa em chamas lançava clarões vermelhos sobre a grama. Scarlet colocou o vestido vermelho que tinha trazido especialmente para a noite de Natal. Pôs o casaco de vison. Passou o batom vermelho e olhou para Jeff. Lágrimas rolavam pela face lisa e quase imberbe do garoto negro. Ele era mesmo uma graça... Uma pontada de pena roçou de leve o coração de Scarlet. Mas, ao consultar o relógio, uma coisa mais importante ocupou a sua mente: estava atrasada para a ceia! Que saco, deixara – de novo – os preparativos de Natal para a última hora e já era quase meia-noite. Sem pestanejar, arrastou Jeff até o Corvette e o colocou dentro do porta-malas. Ajeitou-o entre a maleta e a geladeira portátil com as bolsas de sangue. Será que ele ficaria bem até chegarem? Não queria que se machucasse antes da hora, tinha que estar lindo e perfeito como um enfeite de Natal. Passou a mão gelada sobre a face do garoto. Ele parecia querer dizer algo. Mas não tinha mais tempo, precisava correr. Os olhos aterrorizados de Jeff a fitaram, suplicantes, até desaparecerem sob a tampa do porta-malas. Scarlet entrou no carro.

O Corvette vermelho arrancou. Scarlet ligou o cd player e a música encheu os seus ouvidos. "Oops!... I did it again to your heart. Got lost in this game, oh baby. Oops!..." Yeah! Acelerou até o fim. Os outros a perdoariam pelo atraso quando lhes servisse o prato principal: um garoto forte e saudável para ser repartido fraternalmente entre todos os vampiros do clã. Um gesto digno do verdadeiro espírito de Natal. A gargalhada de Scarlet soou alta, junto com a voz de Britney Spears no último volume...

Fim




Giulia Moon é uma autora de São Paulo, contista, que atualmente se destaca como romancista no cenário literário brasileiro, com seu livro ‘Kaori – Perfume de Vampira’.
Além de ter sua vampira Maya, que aparece em vários contos assinados por Giulia, como uma das personagem mais querida pelos fãs, fiéis, os quais acompanham suas histórias com o mesmo interesse e paixão, de quem acompanha uma série de TV. A maioria por querer saber se Maya irá, ou não, sucumbir ao desejo de cravar os dentes no pescoço do enigmático mordomo Stephen (personagem do universo de Maya, assim como Thorius e Makoto). No entanto, Scarlett faz parte da galeria de personagens femininas maravilhosas criadas por Giulia Moon, que chamam atenção por dar personalidade forte e atitude as suas filhas da literatura.

Para saber mais sobre Giulia Moon entre no twitter da autora: http://twitter.com/giuliamoon

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