Blixi trabalha na posição central da esteira. Pelas janelas da Fábrica é quase impossível entrar um raio de sol, a não ser no verão, quando ele brilha pálido no céu durante longas horas. A maior parte do pessoal não gosta e prefere que se fechem as janelas, deixando a iluminação a cargo dos globos de cristalneve; é como se o inverno durasse o ano inteiro. Ou talvez o outono, a época de maior demanda, quando o Patrono pede um esforço extra a fim de aumentar a produção. Na prática, isso significa trabalhar dobrado. E como a pausa entre os turnos, quando podem sair um pouco, nunca é ao meio-dia, eles ficam vários meses sem ver a luz do sol.
Blixi é um bom operário, mas o Chefe da Oficina o vigia de perto e às vezes o repreende por se distrair. Isso vem acontecendo com mais frequência nos últimos anos, sem que haja uma razão: o ambiente não oferece novidades, muito menos o trabalho, executado com gestos medidos e perfeitos. Juntar duas peças, pregar, passar ao próximo na esteira; juntar mais duas peças, pregar e assim por diante. Não é um trabalho ruim – a ideia nem passaria pela cabeça deles – mas Blixi está ali há tanto tempo, suas mãos tão habituadas a repetir aqueles movimentos que, mesmo sem querer, seu olhar se desprende da esteira, passeando pela oficina como se estivesse em busca de algo. O quê?, pergunta o Chefe, mais ríspido e irritado a cada vez. Mas a resposta de Blixi é baixar a cabeça e voltar ao trabalho.

