Literatura Fantástica nas ondas do rádio




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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Conto XX


Blixi trabalha na posição central da esteira. Pelas janelas da Fábrica é quase impossível entrar um raio de sol, a não ser no verão, quando ele brilha pálido no céu durante longas horas. A maior parte do pessoal não gosta e prefere que se fechem as janelas, deixando a iluminação a cargo dos globos de cristalneve; é como se o inverno durasse o ano inteiro. Ou talvez o outono, a época de maior demanda, quando o Patrono pede um esforço extra a fim de aumentar a produção. Na prática, isso significa trabalhar dobrado. E como a pausa entre os turnos, quando podem sair um pouco, nunca é ao meio-dia, eles ficam vários meses sem ver a luz do sol.

Blixi é um bom operário, mas o Chefe da Oficina o vigia de perto e às vezes o repreende por se distrair. Isso vem acontecendo com mais frequência nos últimos anos, sem que haja uma razão: o ambiente não oferece novidades, muito menos o trabalho, executado com gestos medidos e perfeitos. Juntar duas peças, pregar, passar ao próximo na esteira; juntar mais duas peças, pregar e assim por diante. Não é um trabalho ruim – a ideia nem passaria pela cabeça deles – mas Blixi está ali há tanto tempo, suas mãos tão habituadas a repetir aqueles movimentos que, mesmo sem querer, seu olhar se desprende da esteira, passeando pela oficina como se estivesse em busca de algo. O quê?, pergunta o Chefe, mais ríspido e irritado a cada vez. Mas a resposta de Blixi é baixar a cabeça e voltar ao trabalho.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Conto V



Scarlet sorriu. Ouviu a voz de Bing Crosby entoando White Christmas, a velha e linda canção que inicia tradicionalmente todos os Natais sendo tocada a todo vapor dentro do Macy's. Era um gelado inverno novaiorquino, as luzes das lojas e das árvores coloridas tornavam a noite tão clara como o dia. Tudo preparado para transformar mais um final de ano no grande momento do showbiz, bem ao estilo americano.

Ela sentia-se bem naquele clima festivo, adorava as músicas e os ursinhos de pelúcia nas vitrines. Se pudesse, teria em casa uma dessas grandes árvores de Natal, iluminada com centenas de velas à espera dos seus presentes... Mas naquele exato momento, tinha pressa. Estava indo ao Madison Square Garden, onde um gigantesco show de rock enchia a casa mais uma vez. Rolling Stones, argh... Tudo bem, tinha quem gostasse deles. Assim como outros optavam por grupos de estilos diversos. Sorriu, já acostumada ao horror que causava quando declarava a sua própria preferência: Britney Spears. Não ligava, ela amava músicas alegres, dançantes. No passado gostara de Chopin. Depois, de Strauss, Scott Joplin, Glenn Miller, Elvis, Beatles... Don't worry, be happy, já dizia uma outra canção... E hoje estava indo ao show por outros motivos. Começou a andar rápido, os cabelos ruivos e crespos presos por uma tiara delicada de pérolas, o rosto angelical de uma garota de dezoito anos meio oculto pela gola de vison. Seus saltos batiam de leve na calçada, as mãos pequeninas com luvas vermelhas seguravam a bolsa Chanel com cuidado. Uma vestimenta bem pouco apropriada para o compromisso, mas mesmo assim entrou sem problemas no estádio, graças à sugestão mental que enviou ao porteiro. E, do fundo do auditório, examinou com atenção a platéia.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Conto IV



Sozinha na imensa casa, agora vazia e despida de todo o seu esplendor, Christine fitava desoladamente as chamas que se moviam diante de si. No exterior, a neve caía e, ali, reduzida à miséria dos seus precocemente envelhecidos trinta e sete anos, sabia que, quando aquele pequeno fogo se apagasse, também a sua vida estaria em vias de se extinguir.

Haviam passado meses desde que regressara à sua casa há muito abandonada e a apatia a que fora reduzida era de tal modo imensa, que nem notara a acção dos anos sobre o que, em tempos, fora uma esplendorosa mansão, mas que não passava já de um edifício decrépito, invadido pelo pó e pela vegetação, consumido pelos mesmos anos que haviam consumido a sua senhora.

Fora aquele o seu lar no auge da sua glória e seria também o seu abrigo na ruína, o seu leito de morte. O pouco que lhe restava fora consumido em alimentos e lenha e, agora, já nada tinha que lhe permitisse continuar a lutar. Estava fraca, entorpecida e doente devido aos anos de reclusão. Estava a morrer.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Conto III

É um conto de vampiros, feito por Adriano Siqueira para o Dia das Crianças, mas tendo o Natal como assunto principal, incluímos na nossa seleção de contos natalinos.



Nem todo mundo tem a possibilidade de escolher presentes.
As crianças que têm famílias com baixa renda dependem da generosidade das comunidades para receber presentes no Natal e nem sempre é o que eles gostariam de ganhar.

Foi o caso da menina Berenice, que ganhou um kit completo para brincar na praia. Muitas forminhas de plástico como estrela, lua, tartaruga, para fazer formas na areia, pazinha, colher de plástico, baldinho e tudo mais que ela iria adorar, se morasse na praia. Só que ela morava em uma periferia e só havia água e barro quando chovia muito. Certamente, a sua mãe jamais aprovaria que Berenice brincasse com seu kit por lá, pois as doenças eram muitas e ela sabia que seu brinquedo jamais seria usado.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Conto II


Maya olhou para o céu noturno através da porta que dava para a sacada e sentiu que esta noite a lua não iluminaria seus passos. Não gostava de lua nova. Nem gostava dessa época de noites ruidosas, de neve artificial nas calçadas, de casas cheias de luzinhas coloridas. Tudo isso a deixava deprimida. Ergueu com a mão direita o seu jantar, que se debatia desesperadamente, e, sem mesmo olhar para o homem rechonchudo e vermelho cujo pescoço apertava com força, estalou a sua unha e fez uma punção na veia da jugular, colhendo habilmente o jato de sangue numa taça de cristal. Depois, soltou-o, fazendo com que ele desabasse estrepitosamente no chão. Ora, ela era má, extremamente má... E estava de mau humor.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Conto I

O conto de estréia aqui no blog do programa 'Contos Sobrenaturais' é de Adriano Siqueira, intitulado 'O Presente'. Esperamos que curtam a leitura, tanto quanto nós da Digital Rio.



Como sempre a minha família se reunia na sala, perto da árvore, e trazia comigo sempre meu ursinho Medley pra ver a festa!

Mas papai não vinha...e eu estava aflita esperando sua chegada para distribuir os presentes, para todos, como ele sempre fazia desde que nasci!

Mamãe sempre preparava os mesmos doces, meu irmãozinho sempre ficava perto da porta, (Ele que recebia papai que sempre se disfarçava de Papai Noel) falava sempre que eu era muito pequena para abrir a porta.