segunda-feira, 25 de março de 2013

Entrevista com o diretor e roteirista de 'Uma História de Amor e Fúria'


Luiz Bolognesi
Diretor/Roteirista

Formado em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e em Ciências Sociais pela Universidade São Paulo (USP), premiado o roteirista Luiz Bolognesi é sócio-fundador da Produtora Buriti Filmes. Entre seus roteiros, destaca-se o dos filmes “Chega de Saudade”, “Bicho de Sete Cabeças” e “As Melhores Coisas do Mundo”. Em 2012, ele finalizou a animação “Uma História de Amor e Fúria”, assinando dessa vez direção e roteiro. Além disso, coordena os projetos socioculturais da Associação Tela Brasil: Cine Tela Brasil e Oficina Tela Brasil.


ENTREVISTA (contém spoilers do filme):


Como surgiu o roteiro de ‘Uma História de Amor e Fúria’?
O roteiro une duas coisas que gosto muito: história do Brasil e história em quadrinhos. Como a minha formação é de roteirista, sei que a animação oferece possibilidades ilimitadas na narrativa. Se eu fizer um filme live action, não posso escrever uma cena em que tenha uma guerra no século XVI entre Tupis e Tupinambás. Também não posso descrever um Rio de Janeiro daqui a 60 anos com uma nave espacial voando pela cidade. No desenho animado isso não é um problema. Esse foi o principal fator que me atraiu para desenvolver um roteiro de animação.

Quanto tempo levou para ‘Uma História de Amor e Fúria’ ficar pronto?
Demorou muito. Tudo começou com uma grande pesquisa, na qual trabalhei com grandes pesquisadores das áreas de história e antropologia. A partir daí, escolhi os quatro momentos que queria abordar: a chegada dos europeus vista pelos índios, a revolução negra, a resistência ao regime militar e uma perspectiva de visão do futuro. Comecei a pesquisa em 2002, o primeiro tratamento do roteiro ficou pronto em 2004. Depois vieram vários tratamentos, o último aconteceu em 2010. O filme ficou seis anos em produção, uma característica absolutamente diferente dos filmes de live action.

Este é seu primeiro longa como diretor. Por que escolheu uma animação para a estreia? Como foi a experiência?
Para mim é muito atraente poder escrever uma história que viaja no tempo e tudo pode ser viabilizado pela produção. Na animação, tanto faz se você escreve uma história que se passa em um apartamento ou um filme que viaja por seis séculos. No live action, filmar dentro de um apartamento é super barato, já inserir uma nave espacial voando pelo Rio é inviável economicamente. A animação me permite transformar essa barreira do impossível em algo absolutamente plausível. Fazer o desenho animado foi uma experiência extremamente prazerosa por dois motivos: no live action, o diretor tem que resolver qualquer problema que surja com muita rapidez, isso me angustia muito. No desenho, quando uma cena não fica boa, tenho três semanas para solucionar a questão. O filme levou anos para ficar pronto, mas combina com a minha personalidade fazer as coisas com calma, não me sinto bem diante de crises que tenho que resolver em 20 minutos. Por outro lado, tinha o desafio de manter uma equipe unida por tanto tempo. O fato de ser uma animação nacional para jovens era uma proposta muito atraente, nenhum dos profissionais envolvidos largou o projeto no meio. Consegui um grupo engajado e tive uma troca muito rica com um grupo bem mais jovem que eu.

Como o protagonista é imortal, toda vez que é atingido, vira um pássaro. Essa é uma lenda existente na tribo dos Tupinambás?
É uma história inventada, mas adaptada a partir de um conjunto de lendas dos índios Tupi-Guarani, entre eles, os Tupinambás. Pesquisei muitas histórias mitológicas e baseei a levada do filme nelas. Índios que viram pássaros e outros animais são uma constante na mitologia indígena. Inclusive, eles acreditam que quando a gente dorme nosso espírito vai para floresta e passa a noite dentro do corpo de um bicho. Até hoje, eles falam sobre isso como se fosse verdade absoluta e não um mito. Inspirei-me nessas histórias, mas dei uma mexida nelas, é uma mistura de tudo.

O Anhangá também é uma lenda existente?
Ele é o grande antagonista do nosso personagem principal. Existem várias histórias sobre essa entidade da floresta, que é uma espécie de Deus indígena, o senhor dos mortos. Dizem que ele vive em uma lagoa com cobras e sapos e à noite sai em busca de pessoas de alma fraca e as seduz para a morte. O Anhangá é tão presente na nossa história, que no Rio de Janeiro existe a Pedra de Anhangá. Em São Paulo, temos a Rodovia de Anhanguera e uma universidade com o mesmo nome. Essa figura mítica é tão forte, que está presente até hoje no nosso dia a dia. Como foi feita a escolha de Selton Mello, Camila Pitanga e Rodrigo Santoro para dublar os personagens? Os atores gravaram tudo em dois dias sozinhos, em um estúdio de som. É um processo muito diferente do filme live action, onde eles têm o apoio de cenário, figurino e de outro ator para contracenar. Na escolha do elenco, não podia errar, precisava de grandes atores. Você não consegue extrair emoção, densidade e camadas de interpretação de profissionais que não sejam, no mínimo, geniais. Fui ousado em convidar quem queria e, o grande barato, é que eles aceitaram.

Como você define o protagonista?
Ele é um raro personagem com caráter épico e mítico no cinema brasileiro. A gente conta a história do Brasil a partir da mitologia Tupinambá e, ao mesmo tempo, humanizamos o protagonista com valores contemporâneos para criar uma empatia com o espectador. A imortalidade não é uma escolha dele, é quase uma punição. Ele chega a abrir mão dela de tão insuportável que é esse peso. Foi imposto um destino glorioso ao nosso herói sem que ele estivesse preparado. Ele é um homem muito leal e apaixonado, que está sempre lutando por valores simples, como buscar a felicidade ao lado da mulher que ele deseja. Porém, o tempo todo é atravessado por alguma coisa violenta da história do Brasil que exige que ele retome 10 Voltar ao Índice - seu caminho do início. É um personagem que está fadado a lutar insistentemente, mesmo sem tem certeza de que vai vencer.

E Janaína?
A Janaína é uma síntese da mulher brasileira. Síntese de uma feminilidade que no Brasil poucas vezes foi tratada em sua condição heroica. Diferente do personagem feito pelo Selton, ela não tem consciência da imortalidade. Ela não tem essa dimensão épica, quando morre, morre mesmo, mais ainda assim continua sendo uma lutadora. Janaína provoca o herói a continuar na batalha até quando ele desiste, assim como faz a mulher brasileira.

Como você avalia a história de amor dos dois?
É um amor romântico, superforte, eles estão sempre focados um no outro. Ao mesmo tempo é um relacionamento muito cotidiano e realista porque o casal vive as dificuldades do dia a dia. Sobretudo, é uma grande aposta no amor, em tempos em que as pessoas vivem apenas aventuras. É uma prova de que pode haver aventura e amor dentro de uma mesma relação. O filme retrata várias fases da história do Brasil.

Por que abordar esse tema? Você tem interesse na história do país?
Sempre gostei muito da história do Brasil. O nosso cinema não se dedica muito a contar de uma maneira interessante, com viés de entretenimento e reflexão, aspectos da nossa história, como os americanos e franceses fazem muito bem no cinema deles. Queria falar do Brasil de uma maneira que conquistasse o jovem. A história desse país é repleta de amor e fúria. A visão do futuro no filme é, de certa forma, pessimista. Você realmente acredita que será dessa forma? Acho que a visão que o filme traz do futuro é um prognóstico realista e assustador. A questão da água já é debatida hoje, muito se fala que a crise dos próximos 50 anos será a falta de água doce. É um prognóstico baseado nos grandes debates atuais. O que a gente projeta para o futuro é a realidade que vemos hoje no Brasil, um país de abismos, onde uma elite tem acesso aos grandes confortos da vida e uma grande massa não tem acesso à quase nada. Se a gente não fizer nada agora, o cenário será esse. Criamos um Rio de Janeiro verticalizado, onde os prédios são ligados por trens. Há ainda uma cidade antiga, que ficou abandonada lá embaixo no meio da água estragada por lixo industrial. Outra coisa assustadora que o filma mostra é que em 2096 a Amazônia vira um deserto e o nosso Presidente da República é um pastor evangélico. O Rio torna-se a cidade mais segura do mundo porque é controlada por milícias particulares muito violentas, os conflitos são resolvidos por uma estrutura militar barra pesada.

Qual o público alvo do filme?
São jovens e adultos. Pega dos 12 anos até os adultos de 88 que se interessem pela história do Brasil e que gostam de uma história bem contada. Os amantes de HQ e desenho animado também são nosso público. Não é para um público infantil, acredito que seja de 12 anos em diante.

Esse é a primeira animação a participar da mostra competitiva no Festival do Rio. Você esperava ser selecionado? Acha que este fato pode trazer mais visibilidade ao filme?
Desejava muito ser selecionado, mas sabia que seria muito difícil porque não há tradição de animações participarem de mostras competitivas. Aliás, “Uma História de Amor e Fúria” talvez seja a primeira em todos os festivais do Brasil. É um fato inédito, estamos muito felizes por termos participado do Festival do Rio. Temos consciência de que é um marco. Esse fato coloca pela primeira vez um filme de animação brasileiro no mesmo patamar de um filme de arte. Isso abre muitos portões para a animação brasileira.

Fonte: Entrevista contida em release.

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