sábado, 5 de março de 2011

Mês de São Valentim III


Piquenique nas estrelas

por Louise Duarte


Luisa e Carlos sobrevoavam o Rio de Janeiro em uma noite estrelada típica de verão. Aliás, um verão calorento demais para o gosto de Luisa. Desde que começou a controlar melhor seus poderes de bruxa, ela andou treinando diferentes tipos de magia que incluíam a arte do voo, não muito fácil para aprendizes de bruxos como sua avó Patricia sempre frisava ao mencionar os netos, Luisa e seu irmão gêmeo Lucas.

De qualquer jeito, Luisa havia começado a treinar seus poderes desde que finalmente decidiu aceitar seu destino. Ela era mesmo uma bruxa e não tinha como escapar. Está em seu DNA assim como ser repórter. Eram duas coisas de que ela não poderia fugir.

Apesar de seus poderes estarem se desenvolvendo muito rápido, talvez pelo fato de Luisa estar se dedicando aos estudos mágicos, e lendo bastante o livro das sombras da família Lima. Mas ela não esperava que fosse conseguir ter controle sobre as forças da natureza também. Ou melhor, falta de controle porque por enquanto ela teve alguns acidentes relacionados aos quatro elementos da natureza: água, ar, terra e fogo.

Naquela típica noite de verão carioca, Luisa achou que fosse uma boa ideia levar seu namorado Carlos para um jantar romântico que ela improvisou para ele no terraço do prédio do jornal onde ambos trabalhavam como repórteres, o Noticias Globais. A noite estava perfeita, o céu estrelado apesar do calor. Só faltaria uma lua cheia azul para completar a noite. Mas isso ela poderia providenciar mais tarde.

- Uma moeda pelos seus pensamentos – Carlos interrompe notando como a namorada estava pensativa.

- É só isso que eles valem para você? – Luisa provoca fazendo beicinho. – Poxa....

- Você sabe que não, Lu. Mas é que você ficou tão quieta de repente. Sem contar que essa sua surpresa onde eu me encontro sobrevoando a cidade, de olhos vendados... Eu estou meio apavorado aqui. E você ainda fica silenciosa por um momento. Então, por favor, me esclareça o que está acontecendo querida.

- Não está acontecendo nada, Carlos. Nós já estamos chegando. E se eu te contar vai estragar a surpresa. Só confie em mim está bem?

- Eu sempre vou confiar em você, Lu. Aliás, a noite de hoje só prova como eu confio em você cegamente. Literalmente. Mas eu te conheço. Eu sei que você aprontou alguma.

- Você pode ler mentes? – Luisa provoca com um sorriso sacana que obviamente Carlos não poderia ver, mas que ele poderia identificar em seu tom de voz mesmo sem ver seu rosto. Era assim o relacionamento deles. Eles podiam ver o sorriso um do outro sem precisar ver o rosto do parceiro. Eles conseguiam ler suas expressões faciais e saber que tinha algo errado ou o que o outro pensava. E isso às vezes era muito perigoso, especialmente para Luisa que sempre se metia em enrascadas por conta do seu faro jornalístico. Mesmo com a ajuda dos seus poderes, até ela conseguir controlá-los, eles tem atrapalhado mais do que ajudado.
De repente, Carlos sente eles aterrissando em algo firme e duro. Ele dá um suspiro aliviado sabendo que eles deviam ter chegado. Ele sorri, enquanto tentava desamarrar o nó que Luisa havia feito na venda que estava em seus olhos.

- Posso ver agora?

- Agora você pode – Luisa diz disfarçando um risinho.

Assim que Carlos tira a venda, ele se surpreende ao notar que eles estavam no terraço do prédio do Noticias Globais. Havia uma toalha quadriculada de piquenique estendida no chão, além de duas tulipas e uma garrafa de champanhe.

Luisa olha seriamente para Carlos. Ela estava tensa. Geralmente era Carlos quem fazia os gestos românticos como surpresas e jantares à luz de velas além de noites especiais em seus apartamentos. Mas naquela noite, ela queria surpreende-lo. Queria agradecer por ele ser um homem tão paciente nos últimos meses quando ela descobriu que era uma bruxa e virou sua vida de ponta cabeça, trazendo ele junto às loucuras da família dela. Com poções, práticas de poderes e tudo mais. Ela queria dizer o quanto o amava e era agradecida por tê-lo em sua vida.

Carlos abre os olhos e fica sério por um momento. Ele olha o ambiente em volta e nota a toalha de piquenique, antes de abrir um largo sorriso. Ele empurra os óculos que haviam caído para a ponta do nariz novamente e dá um beijo nos lábios da amada.

- Eu amei.

- Sério? – Luisa pergunta ainda meio desconfiada enquanto eles se sentavam e Carlos começava a encher as tulipas de champanhe.

- Sério, Lu. Apesar de que não precisava nada disso. Uma noite com você na redação ou em casa já era suficiente para mim.

- Eu sei, querido. Mas é que você tem sido tão paciente. E eu queria agradecer por tudo isso. Na verdade, a noite precisava ser perfeita, mas infelizmente eu olhei errado no meu calendário Lunar. A Lua cheia era só para daqui a duas semanas e.... Espera ai! Ai, como eu sou burra!
- O que você quer dizer com isso, Lu? – Carlos indaga entendendo muito bem o que Luisa queria dizer com aquilo e já ficando preocupado com aquele olhar que ela exibia além de um sorriso malicioso. – Ah não! Droga!

- Não se preocupe, Carlos. Eu garanto que vai dar tudo certo! É só um feitiçozinho... Nada muito grande. Aí sim, nossa noite vai ficar perfeita.

- Não sei, não Luisa – Carlos sempre a chamava pelo nome completo quando ficava preocupado com suas táticas. E elas quase nunca davam certo. Na verdade, esse era um dos fatores em comum entre Luisa e seu irmão gêmeo Lucas. Eles nunca mediam conseqüências antes de realizarem os atos quase sempre insanos.

- Confie em mim, querido! – Luisa se levantou, olhou para o céu notando como a noite ainda estava estrelada. Ela olhou fixamente para as nuvens se concentrando no que pretendia fazer. Carlos, bebe um gole do champanhe já nervoso pelo que poderia acontecer. Ele nota as luzes acesas no resto do quarteirão e nos outros prédios. De repente um raio cai no terraço quase acertando, Luisa que consegue desviar dele. Carlos finalmente nota uma lua cheia azul crescendo no céu, fazendo com que algumas estrelas fossem desaparecendo. Luisa dá um sorriso triunfante antes de se sentar novamente na toalha estendida e tomar um gole da bebida.

- Viu? Eu te disse que nada ruim ia acontecer! – Luisa diz presunçosa antes de acontecer o que Carlos previa. Eles notam a rua toda perdendo energia simultaneamente até a cidade ficar completamente às escuras.

Apesar do escuro, Luisa sabia que aquilo era culpa dela e que Carlos a estava olhando com um olhar de reprovação.

- Opa! – Ela diz antes de notar seu celular tocando. Era Lucas e ela sabia que vinha mais sermão pela frente.

- Alô? – Luisa pergunta antes de ouvir a voz zangada do irmão, o que era muito difícil. Lucas quase não se irritava, há não ser quando Luisa fazia alguma besteira e isso raramente acontecia, especialmente pelo fato de que normalmente Luisa era a irmã responsável da dupla.

- Luisa, o que é que você fez dessa vez? – Lucas gritava do outro lado da linha. – Você conseguiu criar um apagão no país inteiro.

- Ei, isso é muito injusto. Como você sabe que fui eu? – Luisa pergunta na defensiva mesmo sabendo que realmente havia sido culpa dela.

- Porque você criou outros pequenos apagões antes disso, lembra maninha? Eu quero saber o que você fez especificamente dessa vez, Lu.

Luisa dá um suspiro frustrada – Ahn, eu usei magia para fazer uma lua cheia aparecer no céu. Nada demais. Até o Jim Carey fez algo pior naquele filme.

- O Jim Carey não usou magia, Lu! E quantas vezes eu tenho que repetir que usar seus poderes é uma coisa. Usar seus poderes para proveito próprio é outra, mas mexer com as forças da natureza para proveito próprio é algo que não dura muito tempo sem conseqüências. E a Mãe Natureza tem seu próprio jeito de nos mostrar isso como você pode ver. Depois, você quer piorar o aquecimento global?

- Não brinca. – Luisa diz sarcasticamente. – Está bem, Lucas. Seu recado foi dado. Não vou mais mexer com a Mãe Natureza sem necessidade. E obviamente eu preciso estudar mais aquele capitulo do nosso Livro das Sombras sobre os quatro elementos.

- Boa garota! – Lucas diz em tom de sarcasmo antes de desligar o telefone. Luisa dá um suspiro frustrado antes de se sentar ao lado de Carlos que faz ela deitar sua cabeça no peito dele.

- Problemas?

- Huh Huh. Aparentemente eu causei um apagão no país todo. – Ela explica se sentindo horrível. – Eu só queria te provar que eu te amo também apesar de toda essa loucura que eu acabei te arrastando....

- Luisa, você não precisa ficar assim. Eu não estaria com você se tivesse problemas com o fato de você ser especial. E não sou um desses maridos dos anos 50 que não consegue aceitar o fato da mulher ser uma bruxa....

- Argh, eu também odiava isso! – Luisa concorda balançando a cabeça.

- O fato é simples e lógico. Eu te amo e te amaria se você fosse vampira, lobisomem, fantasma... não importa se você é da Transilvânia, de Narnia ou de Shangrilá. Eu vou te amar acima de qualquer coisa. Além disso, tem outra coisa....

- O que é? – Luisa pergunta olhando nos olhos castanhos dele.

- Você já havia me enfeitiçado antes. – Ele confessa antes deles trocarem um beijo apaixonado.

É, Luisa pensa enquanto eles se beijavam. Ser bruxa tinha suas vantagens.

FIM


Louise Duarte é contista e uma jornalista viciada em séries de TV, cinema, livros, quadrinhos e música. Colunista da rádio Digital Rio, produz o programa Fala Série, sobre as séries mais legais e as que estão em alta, principalmente as suas favoritas.

A autora é uma das participantes da antologia Sociedade das Sombras – Contos Sobrenaturais, parceria da Digital Rio e a Editora Estronho. Já pode conferir o nome de alguns dos autores colaboradores do programa, que estarão no livro na página da antologia na Editora Estronho.

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