terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Conto VII


O seu coração continuava a bater em ritmo acelerado, inspirava e expirava descontroladamente tentando acalmar-se. O homem abraçou-a, ouvia o seu medo naqueles movimentos bruscos e nas lágrimas que teimavam em deslizar pela sua face.

- Já passou. - disse o homem passando a sua mão direita pelo cabelo enquanto a esquerda segurava as mãos dela junto ao peito - Já se foi embora.

Ela engoliu em seco e levantou-se devagar, como se o que tivesse acontecido lhe tivesse absorvido todas as forças.

- Tu não acreditas em mim...

O homem olhou para os lençois desarrumados da cama onde estavam deitados quando tudo aconteceu, suspirou, não sabia o que dizer.

- Admite, Paulo! Tu não acreditas em mim!

- Eu não sei em que acreditar...

- Ela está aqui.

- Fátima...

- Ela está aqui!

A mulher deixou-se cair no chão do quarto chorando descontroladamente e repetindo "Ela está aqui", o homem levantou-se e foi abraçá-la.

- Ela já não está aqui. - afirmou Paulo - Ela já não está entre nós...

- Rita... - suspirou a mulher - Rita...

Paulo ajudou a mulher a levantar-se e ambos voltaram a deitar-se. Paulo voltou a adormecer, Fátima fechou os olhos de seguida. Alguns segundos depois voltou a abrir os olhos, um barulho no quarto nem a deixou voltar a cair no sono. Virou-se na cama à procura do barulho, pareciam passos, sabia que não estava sozinha....a porta fechou-se devagar.

- Rita... - A mulher levantou-se da cama e foi tentar abrir à porta - Rita, abre! ABRE! - gritou - O que queres? Volta, minha filha...volta.

Um novo barulho do lado oposto atraiu a atenção da mulher, o candeeiro na mesa de cabeceira do lado do marido movia-se, até que caiu ao chão e ouviu-se uma pequena explosão que acordou o marido. O tapete pegou fogo.

- O que se passa? - perguntou Paulo assustado - O que se passa, Fátima?

O homem foi para perto de Rita para a tentar proteger.

- A culpa é nossa, Paulo...a culpa é nossa...não a conseguimos salvar das chamas e agora...

- O que é isto? - questionou o homem, confuso - O que fizeste?

As chamas alastravam rapidamente pelo quarto.

- Ela fechou-nos aqui...para ardermos vivos...

Os gritos desesperados do casal continuavam, o fogo chegou perto de Paulo que foi consumido pelas chamas perante o olhar desesperado da mulher. Assim que o homem caiu o fogo desapareceu, o quarto voltou ao seu estado inicial como se nunca tivesse ardido nada, apenas Paulo estava no chão queimado, Fátima ajoelhou-se e tomou-lhe o pulso quase transformado em cinzas. Sem sinal algum. Fátima levantou-se e sorriu.

- Conseguimos, filha.

A luz do quarto começou a acender e a apagar perante o sorriso sádico da mulher.


Bruno Pereira é de Portugal, Mondim de Basto em Vila Real, tem 26 anos, dois livros de poesia lançados em seu nome "Fragmentos" e "Cruzamentos"(este com mais dois autores, Adriano Ferreira e Márcio Oliveira). Também escreveu um livro de literatura fantástica chamado "Éden - Reinado dos Céus" (o primeiro de uma trilogia). Seus estilos literários favoritos são a poesia e a fantasia. Faz Ciências da Comunicação na faculdade e também é um dos autores da revista literária online Alterwords.

Para saber mais sobre Bruno Pereira, acesse o site de poesia do autor: http://www.oparaisonaoeaqui.blogspot.com/

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